sábado, 30 de outubro de 2010

Leve


A menina ganhou uma flor.
Surpresa, estremeceu.Calou-se
Parou e olhou. Olhou fundo nos olhos do moço que delicadamente abriu os dedos da mão que estava fechada e revelou cinco pétalas rosas, miúdas que cheiravam doce e significavam carinho .
Sorriu. Ficou sem jeito ao pega-la. Seus dedos pareciam uma afronta em comparação a singeleza da flor. Apoiou na orelha, onde seus cabelos serviam como sombra e por ali ficou, até murchar.
Mas o cheiro continuou. No brilho dos olhos. Na suavidade da pele. Na maciez dos cabelos. E na água que molha a boca.

domingo, 17 de outubro de 2010

Blowing


Na rua está ventando . Sinal que vai chover .Tomei dois copos de café escuro . Amargamente doce. Dei um gole na minha água e esperei, aflita, observando o movimento do mundo.
As folhas secas no chão hora correm fugindo, atropelando as pessoas e os carros . Hora elas giram em ritmo descompassado .
As pessoas andam encarando o chão. Somente o chão , como se quisessem lhe confessar algo .Lhe devessem isso. Elas se escondem .
O corpo fala, grava e repete.
Me pergunto qual a capacidade do corpo e , novamente , quanto o utilizamos. Na verdade , quanto o exploramos.
A gente aprende. A gente grava . A gente repete.
Uma dança dos enclausurados .
Se não se pensa , dança , corre , faz teatro ... Usa. Abusa. Ou os dois.
Tem que se desligar sem perceber. Dançar com os sentidos e (não) morrer
Dedicar-se ao vento e as folhas ...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Vai...
Fecha os olhos...
A vida passa como um filme. Um rolo em tecnicolor.
Apaga-se. Se dorme. Se obriga a dormir. Não fala e não é mais visto.
Mas sente.
Sente e sofre.
Pele e osso que são frágeis. Copo que quebra e espatifa no chão. E o pó que se perde no tempo. No vento . Com ele

Amém

A realidade por si só já me maltrata.
A existência é falha e se atenua a cada nota tocada no seu violão.
O batuque do pandeiro chora e a tinta da caneta acompanha em lágrimas.
A água da banheira limpa a sujeira da alma. Escoa pelo ralo , vai para o esgoto e diretamente para o mar. Lá, se purifica e volta ao homem.
O homem . O espírito Santo. O deus vivo. E real. E lindo, mas feio.
Homem que depois mata e assassina. A si mesmo e ao outro. E a si mesmo novamente.
E cala.