quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

She

Ela escutou um barulho.
Era fim de tarde , estava exausta , sem fôlego, chegava essa hora e ela já estava abrindo a boca para ajudar na respiração.A cama estava próxima dela , aos poucos ia se despindo , tirou os chinelos, os pés estavam sujos de areia, a bermuda com a braguilha aberta e a camiseta já se encontrava no chão. Seu corpo, melado de suor, de sal...
Seus passos eram curtos. Primeiro o calcanhar sai do chão, aos poucos o joelho vai fazendo mais força e é a vez do peito do pé...foi! Por fim vão os dedos , 1...2...3...4... a pontinha do dedão... Pronto!
Seus braços estavam esticados na altura dos ombros, as pernas para baixo, com os pés para fora do colchão, sua cabeça pesava no travesseiro de penas de ganso recém comprado , e seu corpo derretia... era como se ela fosse uma vela, a chama laranja e azul que rapidamente ia se decompondo e acabava toda esparramada, sem fronteiras.
Seus olhos estavam finalmente fechados.
Nada passava na sua cabeça a não ser o desejo de dormir, para sempre dormir. Naquele momento tudo que ela estava planejando era dormir pelos próximos dois anos e meio. Estes seriam suficientes.
Ela não pensou direito mas aquele seria seu último suspiro antes de aprofundar em seu próprio mundo. Até que escutou um barulho.
Era como se fosse um ronco, ou então como se uma pessoa estivesse gritando de dor, abafando o som no travesseiro. Se bem que podia ser qualquer coisa, até mesmo sua imaginação, na verdade era muito provável que fosse isso mesmo. Então ela virou de lado e se concentrou para dormir novamente. Dessa vez não demorou muito para que ela escutasse novamente aquele som e tivesse certeza que não fora sua imaginação.
Ela se assustou, mas estava realmente preferindo deixar que qualquer onda sonora destruisse aquela linda casa de praia, do que pensar em se esforçar para levantar e adiar cinco minutos do seu sono.
Mas seu sono e cansaço estavam fora do normal... então voltou sua atenção para isso e der repente todos seus sentidos acordaram e começou a sentir que estava queimando. Não tinha fogo em lugar nenhum, era como se estivesse dentro dela, consumindo-a , alastrando e destruindo toda energia que lhe pertencia.
Estava ali, no centro, no meio do cu. Era ele... seu estômago .
Ela começou a preocupar, ficou eufórica, a unica coisa que sentia era a dor de um soco e a comida que comera mais cedo entalada no finalzinho da sua garganta.
Aos poucos foi sentindo tudo sendo despejado para fora de seu corpo, com uma força brutal. Saía tudo , era um alívio, a cada refluxo ficava mais feliz. Então deixou-se ir ... voando.
E nunca mais botou os pés no chão novamente.

O rio de janeiro continua lindo...

Ah rio...
Amanhã pego a estrada e vou ... vou com destino certo. Rio de Janeiro , cidade maravilhosa , cheia de graça. Que ferve , pulsa . Uma cidade com coração próprio que bate, tem sangue correndo em suas avenidas e becos e ruas e pontes e bares e esquinas.
Você anda acompanhando o fluxo e vai se aproximando da praia.Você ali, pertence.
Tira os chinelos , os pés começam a queimar, mas não tem problema é ali que você quer ficar , é ali que você é . Seus pés lentamente começam a derreter e você começar a caminhar, bem devagar, um passo pequeno de cada vez , deixando um rastro gosmento , pesado da sua pele derretida. Logo começa a sentir os grãos da areia roçando sua carne , que aos poucos também começa a se desfazer e atrás de você começam a surgir moscas, bem grandes, que vão se acumulando e botando seus ovos na sua carne, que fica, jogada naquela areia amarela , linda...
Quase...quase chegando no mar, seus órgãos começam a despencar com uma força brutal.Pulmões , estômago,baço, intestino , o coração e o cérebro também... tudo!
Agora você é só osso , esqueleto, literalmente uma caveira.
Seus pés tocam o mar e por fim sua alma vai embora.
Você está decomposto. 2010 chegou !