quarta-feira, 25 de maio de 2011

Pano

Tudo se perde no limite em que a loucura vira razão. Onde tudo adquire forma nítida, mas duvidosa. Ela fora ensinada a duvidar sempre. Andava nas ruas com medo dos olhares que recebia e não sabia como os devolvia. A encaravam e miravam o chão. Não estavam acostumados com tamanha sinceridade. Estava sozinha: ela e seus vários " eus ". "Eus" errantes. "Eus" que o único comum entre eles é que eram sós, entre outros.
Nasceu e cresceu assim : Nua. Tinha vontade de dar voz ao seu nú . Ao seu eu. Mas não conseguiam olhar além de seus olhos e os curiosos não desistiam de fixar os seus nos dela.
Passou a andar com os olhos tapados . Queria primeiro se enxergar para depois a descobrirem. Não soube de nada mais puro do que o pano que a tapava a cara . O segredo estava em como eram tapados. O vento ficava a vontade para a circular, levando as idéias antigas, tirando-lhe a virgindade, escolhendo-a onde tocar. Era como um livro de páginas brancas, pronto para ser reescrito. Um desafio que somente ele, o vento, poderia se arriscar a tentar vencer.
As primeiras palavras foram escritas com pena e nanquim e o mundo continuava girando só que desta vez com pressa de chegar no ponto final .
Aos poucos, recortou retalhos do pano e os primeiros raios de sol voltaram a tocar seu rosto, deixando-a nua , novamente.
De repente de sua pele foram extraídas pétalas e das pétalas foram surgindo flores das quais voavam para rumos desconhecidos com fome de ver, conhecer. Ela então, foi se desfazendo toda debaixo da lua, que no dia era nova e o vento foi levando-a às ondas e à vontade de ser. Somente.
Por fim abriu os olhos e teve a alegria de saber que sabia de si.
Era ali, pertencia lá. Percebeu que : ela, ela era a solidão do mar.